sábado, 24 de maio de 2014

O drama das famílias de policiais que perderam a vida na luta contra o crime


A farda marrom muito bem passada está pendurada no cabide. Na prateleira do guarda-roupa, a boina preta, o colete à prova de balas e o cinturão dividem espaço com o coturno já engraxado. Mas nada disso sairá do armário. Nunca mais. Em poucos dias, estará empoeirado em um canto do quarto do soldado André Luiz Lucas Neves. Assassinado com dois tiros (um no peito e outro nas costas) ao tentar impedir um assalto no último dia 16, no bairro Ouro Preto, na região da Pampulha, o policial militar de 27 anos estava de folga, à paisana, quando presenciou o crime e tentou intervir. A dor que agora dilacera o coração de parentes e amigos de Neves é velha conhecida de muitas famílias de PMs, como as do soldado Anderson Vieira Torres, do sargento Silmar Pereira da Silva e dos cabos Paulo Henrique de Oliveira e Gladstone Alexandre Soares Bernardo, outros quatro militares que deram a vida pela profissão e cujas histórias ilustram esta reportagem. De acordo com o Comando-Geral da Polícia Militar, 33 homens foram executados nos últimos cinco anos enquanto estavam em serviço - só neste ano foram quatro. Os números são ainda maiores nos registros da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (As­­pra-MG), que considera não apenas as baixas durante o expediente, mas também as dos que morreram tentando combater a criminalidade em momentos de folga, como o soldado Neves. Foram mais de 300 mortes registradas no estado nos últimos onze anos, pelo menos duas a cada mês. 

A violência contra os policiais é, há tempos, motivo de indignação dentro da corporação, um sentimento que explodiu após o episódio no bairro Ouro Preto. Depois do enterro do soldado, cerca de 1 200 militares foram às ruas para protestar, no último domingo (18), cobrando, principalmente, uma pena maior para crimes cometidos contra agentes públicos de segurança e a criação de um programa de proteção para PMs ameaçados. “A morte não tem de ser um risco inerente ao nosso trabalho”, diz o deputado federal Luiz Gonzaga (PDT-MG), que é subtenente e coordenador da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Aspra-MG. Ele critica a atuação do Estado nos casos de assassinato de militares que, estando à paisana, agem contra bandidos. “Essas reações fazem parte do instinto policial, não é preciso estar fardado e escalado para o trabalho para entrar em ação”, afirma Gonzaga. “Somos PMs 24 horas por dia, e não atuar em um caso de perigo iminente é uma negligência. O policial pode até ser responsabilizado por deixar de agir.”

Além de manifestações nas ruas da capital, a comoção provocada pela morte de Neves motivou uma reunião em Brasília, na última terça (20), entre o Comando-Geral da Polícia Militar de Minas Gerais e o Ministério da Justiça. A pauta do encontro foi a dificuldade de manter os criminosos atrás das grades. Os três envolvidos no assassinato de Neves, por exemplo, têm, juntos, mais de trinta passagens na polícia. A ficha criminal mais longa é a de Wilson Guimarães Filho, de 25 anos - são 21 registros por delitos como roubo, receptação, porte ilegal de arma de fogo, ameaça e homicídio culposo. José Henrique da Silva Bento, de 30 anos, que confessou ter sido o autor dos disparos, tem nove passagens pela polícia. E Ítalo Pedrosa de Souza Júnior, de 22, que morreu na troca de tiros, tinha quatro. “Estamos pagando, com nossa vida, o preço pela impunidade”, diz o comandante-geral da PM, o coronel Márcio Martins Sant’Ana. Ele propôs ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, uma mudança no sistema de investigação dos crimes de menor potencial ofensivo. A ideia é que esses casos sejam encaminhados pela Polícia Militar diretamente à Justiça, sem a necessidade de passar pelos trâmites da Polícia Civil. Segundo o coronel, a medida daria mais celeridade aos processos e evitaria que viaturas e equipes de militares perdessem horas de trabalho na fila dos registros de ocorrências nas delegacias. “É preciso senso de urgência na aplicação do direito penal no país.”

Marchando em protesto por Belo Horizonte, o que esses militares querem é que a família deles possa sentir orgulho do ofício que escolheram - e não o medo que assombra a merendeira Maria do Carmo Aparecida Torres, de 55 anos. Quando os alunos da escola em que trabalha falam que querem ser policiais, ela se arrepia. “Digo a eles para não cometerem esse erro, ninguém sabe o que a família de um PM sofre”, conta ela, que enterrou o filho, o soldado Anderson Torres, aos 29 anos, em 2008. Maria do Carmo não conseguiu fazer o seu menino desistir da ideia de entrar para a corporação. “A paixão dele era proteger e defender o próximo.” Aqueles que seguem essa vocação merecem a nossa admiração. Quando morrem em combate, merecem o nosso luto.

Profissão perigo
As estatísticas dos assassinatos de PMs expõem a insegurança no exercício do ofício

43 500 é o total de policiais militares em Minas Gerais

300 foram executados no estado desde 2003, de acordo com a Aspra-MG

33 deles foram mortos em ação nos últimos cinco anos, segundo a PM

2 mortes por mês é a média de assassinatos da última década

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